18/02/14

Frente dos Direitos Humanos estuda medidas contra deputado Luis Carlos Heinze por declarações contra minorias




Jean Wyllys defende punição a Luis Carlos Heinze por discurso

Mais ativista social do que parlamentar no Congresso Nacional. É assim que se define o jornalista, professor universitário e escritor Jean Wyllys (P-Sol), baiano de nascimento, mas que se elegeu deputado federal pelo Rio de Janeiro. Na Câmara dos Deputados, em Brasília, faz parte da minoria que defende os direitos civis e humanos, como o das prostitutas, dos homossexuais e dos desvalidos. Hoje, na reunião da Frente Parlamentar dos Direitos Humanos, Jean e outros deputados vão definir quais serão as medidas a serem tomadas a respeito da declaração do deputado federal gaúcho Luis Carlos Heinze (PP) de que quilombolas, índios, lésbicas e gays são “tudo que não presta”, feita para agricultores durante encontro, cujo vídeo divulgado, na semana passada, repercutiu em todo o Brasil.

Jean Wyllys, nos últimos três anos, vem acumulando reconhecimentos pelo seu ativismo social e sua defesa das liberdades individuais e coletivas. Em março de 2013, foi golpeado quando o Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) foi eleito para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Agora, no colegiado, a luta é outra: evitar que Jair Bolsonaro (PP-RS) consiga ser o sucessor de Feliciano. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Jean Wyllys ainda fala sobre suas bandeiras e sobre um projeto que devem causar polêmica: o que pretende legalizar a maconha.

Jornal do Comércio – Na Frente Parlamentar dos Direitos Humanos, quais as medidas que os deputados irão tomar sobre as declarações do deputado federal Luis Carlos Heinze?

Jean Wyllys – A opinião deste cara não me causa espanto. A gente sabe como pensam estas pessoas. A única novidade neste caso é uma prova material do que ele disse, ou seja, a fala dele. Recebi o vídeo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e a gente vai fazer uma reunião da Frente Parlamentar de Direitos Humanos. A gente vê, a princípio, a incitação à violência e apologia ao crime, que cabe uma representação na Procuradoria-Geral da República, pois ele é deputado federal, além de apresentar representação contra ele na Corregedoria da Câmara dos Deputados.

JC – Como senhor vê a candidatura de Jair Bolsonaro (PP-RJ) à Comissão de Direitos Humanos, sendo que ele defende pena de morte e é contra os homossexuais?

Jean – Infelizmente, em um país com uma democracia muito jovem, ainda cabe a um deputado federal, que jurou proteger os princípios da constituição cidadã, defender publicamente a morte dos homossexuais ao dizer que um filho dele, se fosse gay, já nasceria morto. Esta é uma das muitas frases de efeito do Bolsonaro para provocar e falar fundo nos preconceitos da população. Temos que desmoralizar e desconstruir estas figuras em nome de um país democrático, em nome da livre convivência dos diferentes. Por um país melhor, uma excrecência como o Bolsonaro não deveria existir. Não estou dizendo que temos que solapar a diferença política, mas há tons e tons para diferenças políticas. Uma coisa é o Ronaldo Caiado (DEM-GO), que é um conservador de direita, outra é o Bolsonaro, um fascista, um cara que defende extermínio de homossexuais e delinquentes. E é um pensamento contraditório, pois ele é um bandido, ele é um criminoso que pratica crimes de opinião, injúria, difamação. Mas, este cara que pratica, reiteradamente, estes crimes, acredita que os criminosos que praticaram outros delitos não merecem viver. Aí ele diz coisas do tipo: “A única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas”. O curioso é que ele nunca diz isso quando ele pensa nos crimes da classe dele. Ele não trata os crimes de todos os torturadores e assassinos da ditadura militar como crime. Ele nunca defende que esta gente seja enforcada e degolada, para estas pessoas ele defende o estado de direito, mas para as pessoas negras e pobres e minorias sexuais ele quer a morte. Isto não é diversidade política, mas fascismo, e a gente não pode ser condescendente.

JC – E o seu projeto pela legalização da maconha no Brasil?

Jean – O que eu posso dizer é que o projeto é coerente com a minha luta maior pelas liberdades individuais, pelo enfrentamento do narcotráfico, pelo direito de uma segunda chance à juventude pobre aliciada pelo tráfico, por um estado penal mínimo, pelo futuro dos nossos adolescentes. Também está coerente com a minha luta pela regulamentação da prostituição no Brasil, como forma de enfrentar a exploração sexual de adolescentes, e de enfrentar o tráfico de pessoas. Então, a única forma de fazer isso é regulamentar a prostituição, pois é fundamental para combater o tráfico humanos com fins de prostituição e trabalho escravo, além de evitar a exploração sexual de crianças. Este é um mal que precisa ser enfrentado, e que acontece em todos os lugares. E quem se coloca contra isto, é no fundo quem se beneficia desta ilegalidade. Quem se coloca contra a regulamentação da prostituição e legalização da maconha tem que saber que esta pessoa se beneficia em torno destas ilegalidades.

JC – O senhor acredita que a grande mídia está se apropriando da morte do cinegrafista Santiago Andrade para criminalizar os movimentos sociais e as próximas manifestações?

Jean – Claro que sim. Os movimentos sociais deste País sempre foram criminalizados. Se você fizer a arqueologia de como os jornais trataram o MST, você vai ver que os movimentos sempre foram criminalizados. E o discurso dos direitos humanos no País sempre foi contra-hegemônico, porque as elites e a imprensa sempre tratam os direitos como privilégio de uma classe social. E, portanto, qualquer movimento de reivindicação de direitos garantidos na Constituição sempre foi criminalizado. O movimento dos sem-teto foi criminalizado, assim como o de direitos de crianças e adolescentes. Fizeram com que a grande maioria da população introjetasse a estupidez de que os direitos humanos vieram para defender bandido. As pessoas não compreendem que os direitos humanos é o direito de todos e todas, incluindo os bandidos, os páreas, as minorias. Não se está abrindo mão de cuidar das maiorias para dar conta das minorias, é um movimento de trazer as minorias para uma comunidade moral maior ao qual pertence as maiorias. E, não há por parte da imprensa um empenho de construir esta cultura de direitos humanos como um direito de todos, porque a grande mídia faz parte desta ideia de privilégios.

Com informações do Jornal do Comércio

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