29/08/15

Fala do deputado Jean Wyllys na Comissão de Direitos Humanos do Senado em homenagem a Abdias Nascimento




Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.

“Jean Wyllys: Obrigado, presidente Paim. Bom dia a todas e todos vocês.

Eu saúdo, nas figuras de Elisa Elisa Larkin e da secretária Marisa, todas as autoridades presentes. Tanto as que estiveram antes, na mesa, quanto as que estão na plateia. Para mim é uma honra fazer parte desta audiência pública em homenagem a Abdias Nascimento. Quero parabenizar demais Elisa que é incansável no seu esforço de preservar a memória de Abdias Nascimento. E a gente sabe que sem memória não há identidade nem individual, nem coletiva. E a identidade é a percepção de si. E, ao mesmo tempo, a memória não é evocada sem ritos. Então essa audiência aqui é fundamental, é um rito de evocação da memória de Abdias Nascimento. Acho que é fundamental a gente mostrar para as novas gerações… eu fico feliz da escola, de ter alunos do ensino médio aqui presente… mostrar às novas gerações a conexão entre o pouco que se conquistou em termos de cidadania e direitos para os afrodescendentes e o trabalho de Abdias Nascimento porque às vezes essas coisas se perdem. Parece que os direitos caem do céu e não são conquistado frutos de uma luta.

E nesse sentido, Abdias Nascimento deu uma enorme contribuição. Não só em termos legislativo, mas de pensamento para o que a gente tem hoje. A gente pode dizer que essa CPI que investigou, porque ela já foi concluída, que investigou o que a gente chamou de genocídio da juventude negra e pobre no Brasil, essa CPI, de alguma maneira, ela é fruto do trabalho de Abdias Nascimento e de outros representantes das diferentes expressões do movimento negro no Brasil.

Essa CPI eu considero a mais importante que aconteceu este ano. E olha que o ano nem terminou e a gente não tem previsto uma CPI tão importante quanto esta. Entretanto, os meios de comunicação hegemônicos, digamos assim, o que a gente chama de “grande mídia”, deu pouca bola para essa CPI. E deu pouca bola por razões óbvias, a gente sabe disso.

Esse é um tema sobre o qual as pessoas não querem se debruar. A gente nun~ca fez, de fato, um luto da escravidão de negros no Brasil e do legado da escravidão. Essa CPI, de alguma maneira, fez esse trabalho, mas a grande imprensa não deu a bola que ela merecia.

Entretanto, apesar de ter produzido resultados interessantes, um relatório consistente que aponta para o genocídio da juventude negra e pobre brasileira, que ameaça o desenvolvimento sustentável do Brasil. Isso é fato.

Alguém falou aqui na mesa anterior, me parece que foi o Harvey que disse isso. Que falou sobre o bônus demográfico e de como esse bônus demográfico pode ser afetado por essa política de Estado, essa política de segurança, que tem produzido um extermínio da juventude negra e pobre. Então essa CPI produziu resultados interessantes, consistentes, em termos de dados, mas também de indicações legislativas e de políticas públicas para reverter isso.

 

Porém, é importante dizer – e politica é ser honesto e fazer discernimento –  é o momento de a gente lamentar como tivemos que abrir mão, nesse relatório, das referências à identidade de gênero e orientação sexual do povo negro. Esses termos tiveram que ser excluídos do relatório porque as forças políticas que são hegemônicas nessa casa não querem tratar dessa outra questão que também é um tabu, que é a homo-lesbo-transfobia. Então a população negra, a juventude negra e pobre ,ela não existe na abstração. Ela existe na materialidade da sua classe social e na materialidade da sua identidade de gênero e da sua orientação sexual. O caso da Verônica Bolina, a transexual espancada por policiais em São Paulo e depois exposta nas redes sociais, uma travesti negra e pobre, é um exemplo de que a identidade de gênero pode vitimar ainda mais uma pessoa negra. Então eu lamento bastante que nós tenhamos que abrir mão, que nós tivemos que abrir mão, dessas referências no relatório da CPI da juventude negra e pobre por causa dessas forças conservadoras. Essas são as mesmas forças, Frei Davi,que tentam sabotar as políticas afirmativas porque é, de fato, uma sabotagem. Se aproveitar de algo que, de fato, é controverso… colocar quem é e quem não é negro no país. O movimento negro sempre se afastou dos critérios biológicos para partir para uma afirmação de si e hoje nós temos pessoas de má-fé sabotando essa política. O que é lamentável.

E, também, eu quero lembrar algo aqui que é interessante. Antes mesmo das políticas afirmativas serem implementadas no Brasil, graças, sobretudo, ao trabalho da Igreja Católica – e eu vim do movimento pastoral da Igreja Católica – eu fiz um movimento de afirmação de mim mesmo, aliás eu e toda a minha família, como um homem, filho de homem e neto de um homem de pele preta. Eu e minha família fizemos, muito cedo, essa afirmação da afrodescendência. .

Há uma inequívoca contribuição de Abdias Nascimento para a organização dos atores da cultura. Fundamental a maneira como ele colaborou para essa organização, para que as pessoas questionassem a representação do negro na industria cultural, a inserção do negro nas políticas de cultura.

Mas eu considero que a representação mais importante de Abdias Nascimento foi mesmo no plano da política e não só por meio desse legado legislativo, mas a própria presença dele aqui. A presença do Abdias Nascimento em em um legislativo, em um poder da República que, por conta das eleições marcada pela força da grana – sim, as eleições ainda são marcadas pela força da grana – se fecha à representação de homens e mulheres negras, a presença desse homem aqui tem um significado muito grande.

E é nesse ponto que eu me conecto com ele porque eu imagino a enorme solidão de Abdias Nascimento nessa casa, trazendo o tema do racismo para cá. Eu me sinto conectado não porque eu não tenho a pele preta e não sou identificado imediatamente como homem afrodescendente. Eu me sinto conectado porque eu sou um homossexual assumido, o único do Congresso Nacional, e trago para aqui o tema da discriminação homossexuais e da homofobia. E por esse motivo sou combatido e difamado. Então é nesse ponto que eu me conecto com ele, nesse ponto de vanguarda. Eu fico imaginando a solidão dele. É muito parecida com a minha.

E por isso, para mim, ele tem essa importância muito grade de desconstruir o imaginário sobre o lugar do negro. As representações sempre colocaram os homens e as mulheres negras em lugares subalternos, e de repente esse homem ascende a um dos poderes da República, torna-se uma autoridade da República em um país racista que não estava habituado a ver um homem negro nesse lugar. Esse para mim é o significado maior do Abdias Nascimento.

E para a gente ter uma ideia do quão importante isso é, Gilberto Gil, outro homem negro que se tornou homem público também, com representação em um dos poderes da República, em 1988, ano em que se comemorou o centenário da Abolição da Escravatura, Gilberto Gil escreveu uma letra de uma música que se chama “Pode Valdir?” e tinha a ver com o fato de ele ter sido derrotado em suas pretensões a ser prefeito de Salvador que é uma cidade majoritariamente negra. Chamada até de “A Roma Negra”. Então, nessa cidade, onde o elemento cultural africano se tornou hegemônico, a música baiana é uma música negra, os orixás são apropriados pela indústria hegemônica… nessa cidade Gilberto Gil não conseguiu ser indicado, ter a indicação do partido para prefeito. E ele escreveu uma letra que é incrível em mostrar como esse sistema resiste à presença de homens e mulheres negros. E eu peço licença aqui para ler a letra. Para quem não conhece essa letra.

“Pra prefeito, não

Pra prefeito, não
E pra vereador:
Pode, Waldir?

Prefeito ainda não pode porque é cargo de chefia
E na cidade da Bahia
Chefe!, chefe tem que ser dos tais
Senhores professores, magistrados
Abastados, ilustrados, delegados
Ou apenas senhores feudais
Para um poeta ainda é cedo, ele tem medo
Que o poeta venha pôr mais lenha
Na fogueira de São João

Se é poeta, veta!
Se é poeta, corta!
Se é poeta, fora!
Se é poeta, nunca!
Se é poeta, não!

O argumento é que o momento é delicado
E prum pecado desse tipo
Pode não haver perdão
Mudança é arriscado, muda-se o palavreado
Mas o indicado
Isso ele não muda, não
O indicado deve ser do tipo moderado
Com um mofo do passado
Peça do status quo

Se é poeta, veta!
Se é poeta, corta!
Se é poeta, fora!
Se é poeta, nunca!
Se é poeta… oh!

O certo poderia ser o voto no Zelberto
Mas examinando mais de perto
Ele tem que duvidar
A dúvida de que a Bahia tenha um dia tido a primazia
De nos dar folia
De nos afrocivilizar
Pra ele civilização é a França que balança
No seu peito de homem direito
Homem de jeito sutil

Se é poeta, veta!
Se é poeta, corta!
Se é poeta, fora!
Se é poeta, nunca!
Se é poeta, Gil!”

Muito Obrigado!”

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